
Durante a Guerra Fria, o lançamento do satélite Sputnik 1, em 1957, marcou o início da corrida espacial. Um ano depois, os Estados Unidos também lançaram seu primeiro projeto, o Explorer 1. Essas primeiras versões tinham como objetivo demonstrar que era viável manter satélites na órbita da Terra. Contudo, logo após, em 1962, o lançamento do Telstar I abriu a era dos satélites nas telecomunicações.
Assim, as comunicações intercontinentais, até então possíveis graças somente aos cabos submarinos, ganharam reforços importantes. É claro que, nessas décadas, muita coisa mudou. Estimativas indicam que, atualmente, existem mais de 11.700 satélites operantes em órbita, utilizados tanto para telecomunicações quanto para GPS, fins militares ou meteorologia.
Com o sucesso do uso de satélites nas telecomunicações, o início da década de 1990 foi o momento em que um passo a mais foi dado: o uso deles para serviços relacionados à internet. Mas acontece que a baixa velocidade oferecida não era um grande atrativo para os consumidores. Até o fim dos anos 90, a Internet cabeada já havia se popularizado. E não é para menos: esse tipo de conexão superava os satélites em termos de velocidade, confiabilidade, além de ter um melhor custo-benefício.
Em 1997, houve uma tentativa de melhorar essa situação com o lançamento dos satélites Iridium. Entretanto, a velocidade de apenas 0,01 Mbps não foi suficiente para alavancar o status da internet via satélite. Porém, 10 anos depois, a Astra aumentou significativamente a velocidade de conexão, que chegava a 20 Mbps. Todavia, os custos envolvidos nessa tecnologia ainda eram um empecilho para sua consolidação como uma boa opção de conexão.
Foi em 2018 que o uso de satélites, finalmente, chegou ao seu grande divisor de águas. O responsável por isso foi a Hughesnet, com sua rede de satélites de quinta geração. Eles finalmente atendiam aos padrões da Federal Communications Commission (FCC) para banda larga, ou seja, o mínimo de 25 Mbps.
A Internet via satélite é um dos tipos de conexão que mais vêm se desenvolvendo. Mudanças na altura dos satélites em relação à Terra têm proporcionado mais velocidade e acabado com a ideia de que essa conexão só é interessante para quem mora ou trabalha em áreas remotas, onde a estrutura de fibra óptica ainda não chega.
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Mais adiante, debateremos melhor acerca dessa escolha. Mas, agora, é importante entender que os satélites nas telecomunicações podem estar posicionados de maneira diferente. E isso tem tudo a ver com o seu objetivo e impacta diretamente em como você recebe o sinal.
São os satélites que ficam “fixos” em relação à Terra a uma altitude média de 36 mil km. Segundo Jordan Paiva, do Ministério das Comunicações, o GEO funciona como uma usina hidrelétrica: é uma base estável, robusta e capaz de “iluminar” o país inteiro com um único feixe. Essa característica os tornam imbatíveis para transmissão de TV (Broadcast), serviços de meteorologia e conexões governamentais críticas que exigem estabilidade absoluta.
Diferente dos anteriores, são não estacionários em relação à Terra. Tais satélites operam a uma altitude típica de 10.400 km e atendem, principalmente, sistemas de navegação global (GPS) e serviços de comunicação.
No Brasil, a constelação O3b mPOWER, da operadora de satélites SES, foi contratada pela Claro Brasil. O intuito da operadora é utilizar essa capacidade satelital para expansão de cobertura 4G/5G, especialmente em regiões de difícil acesso.
Também não estão fixos em relação à Terra e funcionam a uma altitude entre 500 e 1.500 km. Por estarem muito mais próximos da Terra, a latência cai drasticamente, de 240 ms para cerca de 20 ms. Dessa forma, esses satélites atendem às telecomunicações, incluindo Internet banda larga de alta velocidade, apesar de podem sofrer com jitter (variação na latência). Isso acontece por conta da constante troca de conexão entre os satélites, que se movem rapidamente no espaço. Além disso, satélites nessa faixa também servem para a observação do planeta.
O mercado sempre difundiu a Internet via satélite enquanto uma opção para quem está em áreas remotas, tal qual o agronegócio ou o transporte marítimo de cargas, por exemplo. Mesmo que essa tecnologia já estivesse presente nesses setores desde o início dos anos 2000, ainda era vista como lenta e pouco confiável em termos de estabilidade.
Entretanto, muita coisa mudou quando os satélites de baixa órbita, os LEO, que você viu acima, entraram em operação. A iniciativa da empresa SpaceX, com seu projeto Starlink, já conta com mais de 10.000 lançamentos e aproximadamente 8.600 a 9.000 deles estão ativos. Inclusive, a companhia recebeu autorização para colocar em órbita outros 2.000 ― número expressivo, porém longe do objetivo final de 30.000 satélites.
Por operarem em uma altitude significativamente menor, conseguem reduzir a latência de Internet e aumentar a velocidade de conexão. Para se ter uma ideia, enquanto os satélites convencionais ficam a uma distância de 36.000 km, a Starlink está a apenas 550 km, o que faz com que a latência caia de 240 ms para 20 ms.
Isso possibilitou que a Internet via satélite passasse a ser uma opção mesmo para quem precisa de conexão nos grandes centros. Contudo, algumas limitações próprias desse tipo de conexão, como interferências por conta do clima, continuam existindo.
Todavia, embora não seja recomendada como a conexão principal, a Internet via satélite é uma excelente aliada quando o assunto é redundância. Isso porque mesmo diante de desastres que danifiquem estruturas físicas, tais quais o rompimento de cabos, a Internet via satélite continuará funcionando. Para as empresas, isso significa que as operações conseguem se reestruturar rapidamente, portanto, haverá menos tempo de inatividade.
Diante das mudanças climáticas, as conexões terrestres (cabos e fibras) estão cada vez mais expostas a rompimentos por desastres naturais. Nesse cenário, o satélite se consolida como a única infraestrutura capaz de manter a comunicação quando todo o resto falha.
Para empresas que não podem parar, a redundância via satélite LEO oferece, hoje, a combinação ideal. Afinal, mantém a operação com baixa latência, o que garante a continuidade dos negócios e minimiza prejuízos.
Os satélites nas telecomunicações são indispensáveis e, até agora, nenhuma tecnologia parece nem perto de substituí-los. Além disso, os avanços na área continuam. Uma das novidades mais aguardadas é a tecnologia D2D (Direct to Device). A partir desse serviço, o dispositivo estabelece comunicação direta com o satélite, dispensando o intermédio de redes terrestres. No Brasil, a Anatel autorizou os testes em março de 2024.
O D2D viabilizará outra grande revolução que envolve os satélites nas telecomunicações: a criação de redes híbridas. De maneira resumida, funciona por meio de uma parceria entre a empresa detentora dos satélites e as operadoras de telefonia. Assim, logo que o dispositivo se desconectar da rede terrestre, ele muda automaticamente para a conexão via satélite.
Ainda, a multi-órbita tem deixado de ser uma projeção para um futuro distante e se mostrado como uma realidade. Isso significa que satélites em diferentes órbitas (GEO, MEO e LEO) serão usados em conjunto, de modo a garantir resiliência e flexibilidade para operadoras e grandes clientes.
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A principal diferença está na altitude e na finalidade. Satélites GEO ficam fixos em relação à Terra, MEO operam em órbitas médias e LEO funcionam em baixas altitudes, o que os leva a oferecer menor latência.
Com a entrada em operação dos satélites LEO, a Internet via satélite passou a oferecer maior velocidade e menor latência, tornando-se viável também para usuários em grandes centros urbanos, inclusive enquanto opção de link redundante para empresas.
Apesar dos avanços, a Internet via satélite ainda pode sofrer interferências climáticas e não costuma ser a principal opção de conexão em locais com infraestrutura terrestre robusta.
A tecnologia D2D permite que dispositivos se conectem diretamente aos satélites, sem depender de redes terrestres, viabilizando redes híbridas e ampliando a cobertura de comunicação.

Por
Rafael Cordeiro
COO e sócio da VC-X Solutions, minha missão é simplificar o universo das telecomunicações para empresas. Com mais de 10 anos de experiência, sou especialista em navegar pelas complexidades do setor, transformando desafios burocráticos com operadoras e órgãos como Procon e Anatel em soluções práticas!