
Quanto menos fios, melhor, não é verdade? Wi-Fi, cloud computing, Internet 4G e 5G mostram que ter mobilidade e estar conectado à rede é perfeitamente possível. Acontece que até mesmo essas tecnologias precisam de estruturas físicas para fazer a troca de dados entre os dispositivos. E os cabos submarinos funcionam como a ponte que liga a sua solicitação à resposta do site que você quer acessar.
Embora exista muita tecnologia e engenharia envolvidas, de certo modo, os cabos submarinos são mais analógicos do que se imagina. Basicamente, eles consistem em cabos de fibra óptica que ligam um continente a outro. Um enorme carretel sai do ponto de origem ― que falaremos em detalhes mais adiante ― e é transportado por navios que vão, literalmente, desenrolando o fio no fundo no mar até chegar ao destino.
Não por acaso, eles são considerados a “espinha dorsal da Internet”. Afinal, são estruturas responsáveis por conectar continentes e respondem por 90% do tráfego de internet que chega ao Brasil. Ainda, estima-se que, diariamente, os cabos submarinos transportem cerca de 15 trilhões de dólares em transações. Obviamente, essa relevância faz deles uma estrutura crítica — tanto que eles têm sido alvo de ataques no conflito entre Rússia e Ucrânia.
Essa tecnologia não é novidade. O uso dos cabos submarinos começou em 1840, mas de maneira limitada ― assim como sua vida útil ―, atravessando rios. Pouco depois, em 1850, os primeiros cabos submarinos (para viabilizar, à época, a comunicação telegráfica), ligaram a França à Inglaterra. Em 1858, eles fizeram sua primeira viagem transatlântica e um grande navio partiu da Inglaterra rumo aos Estados Unidos.
Atualmente, essa “rodovia submarina” já conta com algo em torno de 600 cabos, que cobrem cerca de 1,3 a 1,4 milhão de quilômetros no total. E essa infraestrutura segue expandindo, uma vez que empresas instalam cerca de 100 mil novos quilômetros de cabos anualmente.
Todavia, os fios submersos são apenas uma parte da estrutura necessária para os cabos submarinos. Tanto que o projeto de instalação compreende duas plantas: a Wet Plant e a Dry Plant. A primeira, a Planta Molhada, é responsável por aquilo que fica submerso, que, além dos cabos, recebe repetidores e amplificadores. Já a Planta Seca trata do caminho que os cabos percorrerão assim que voltarem à superfície. Ela designa o projeto de aterramento e o trajeto até, comumente, um data center.
Ainda que tenham vida útil estimada em 25 anos, como qualquer ativo, os cabos submarinos também podem enfrentar adversidades. No caso deles, impacto por âncoras de navios (responsáveis por 25% dos danos), terremotos e erosões (14%) são os principais. Na Ásia, outra questão bastante comum são as redes de pesca que se enroscam nos cabos.
Mas, de que maneira resolver um problema que pode estar a até 2.150 m de profundidade? Bom, como você deve imaginar, um reparo desse não é nada barato. Existem empresas especializadas nesse trabalho, o qual pode incluir o uso de robôs, mergulhadores ou, em alguns casos, o içamento do cabo para conserto na superfície. Porém, dada a complexidade, as equipes realizam esse procedimento somente quando ele é estritamente necessário.
De fato, a Internet via satélite é um dos tipos de conexão que mais tem evoluído nos últimos anos. Isso se deve ao uso de satélites de baixa órbita, conhecidos como LEO (Low Earth Orbit). Enquanto um satélite convencional fica a cerca de 36.000 km de distância da Terra, os satélites LEO, desenvolvidos pela Starlink estão situados a apenas 550 km. Essa proximidade faz com que a latência seja drasticamente reduzida.
Embora a Internet via satélite tenha apresentado melhoras significativas, o mercado a vê como uma “conexão complementar”. Isso porque a estabilidade e a velocidade dos cabos de fibra óptica é imbatível: oito vezes mais rápida que a de conexão das redes de satélites. Ainda comparando esses dois tipos de conexão, em 1994, a comunicação global dividia-se entre 50% via cabo e 50% satélites. Já em 2004, essa proporção mudou drasticamente e passou a ser 98% por meio de cabos submarinos.
Para se ter uma ideia, um dos cabos submarinos que chega ao Brasil, conhecido como EllaLink, percorre mais de 6 mil quilômetros até a cidade de Sines, em Portugal. Ou seja, um percurso bastante longo, em comparação com o percorrido por um sinal enviado de um satélite LEO. Mas, ainda assim, muito mais rápido.
No Brasil, a maior infraestrutura dedicada aos cabos submarinos está localizada na Praia do Futuro, em Fortaleza (CE). A cidade recebe 16 cabos que ligam o país à Europa, África, Estados Unidos e Caribe. A escolha desse lugar se deve à sua localização privilegiada, pois é o mais próximo de todos esses pontos.
Em contrapartida, essa concentração no Ceará também causa preocupação por conta da dependência. Esse tema, inclusive, foi abordado no evento Intra Rede, em que Rafael Lozano Pascual (EllaLink), projetou um cenário em que essa infraestrutura colapse e, como consequência, toda a América Latina seria afetada.
Aqui no Brasil, os primeiros sistemas de cabos submarinos brasileiros 1874 conectavam cidades importantes, tais quais Rio de Janeiro, Salvador, Recife e Belém. Um ano mais tarde, tivemos nossa primeira ligação internacional com Portugal.
Atualmente, o Brasil passa pela Segunda Onda de expansão, que começou em 2014 a partir da instalação de cabos com até 138 Tbps. A primeira, de cabos com até 2 Tbps, aconteceu entre 2000 e 2001.
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Além da capital cearense, contamos com outros pontos estratégicos como Praia Grande (SP), que recebe estruturas fundamentais, a exemplo dos cabos submarinos Firmina, do Google. Inclusive, a empresa já anunciou a expansão a fim de ampliar a conectividade de fibra óptica entre a América Latina e os Estados Unidos.
Ainda, a cidade do Rio de Janeiro têm papel fundamental em conectar o Brasil à Europa, à África e ao restante da América do Sul. Isso acontece por meio da estrutura de cabos Atlantis-2. Lá também estão os cabos Malbec, que ligam Rio de Janeiro, Praia Grande (SP) e Las Toninas (Argentina) e Junior (Rio de Janeiro-Santos).
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Cabos submarinos são estruturas de fibra óptica instaladas no fundo dos oceanos, responsáveis por transportar dados entre continentes e países, viabilizando a comunicação global pela Internet.
A instalação é feita por navios especializados, que desenrolam o cabo diretamente no fundo do mar, desde o ponto de origem até o destino final, seguindo um projeto previamente definido que engloba duas partes:
• Wet Plant (Planta Molhada): parte submersa da infraestrutura, incluindo cabos, repetidores e amplificadores.
• Dry Plant (Planta Seca): trecho em terra, que envolve o aterramento do cabo e sua conexão junto a data centers e redes locais.
Não completamente. Apesar dos avanços dos satélites de baixa órbita (LEO), a Internet via satélite é vista como complementar, já que os cabos de fibra óptica oferecem maior estabilidade, capacidade e velocidade e, hoje, são responsáveis por 98% da Internet global.
O Brasil é um dos países que mais recebem cabos submarinos no mundo, com destaque para Fortaleza (CE), além de pontos estratégicos como Praia Grande (SP) e Rio de Janeiro (RJ), conectando o país à Europa, África, América do Norte e América do Sul.
Por
Daniel Curi
Especialista em gestão de Telecom e TI com mais de 10 anos de experiência no setor. Tenho liderado inúmeros projetos voltados a automações nessa área, otimizando processos, trazendo eficiência operacional e ganho de tempo, permitindo que as equipes se concentrem nas atividades estratégicas da organização.